Como ler esta árvore
Clique em qualquer nome para abrir. As cores não valem julgamento: elas só dizem que papel aquela pessoa cumpre dentro da narrativa.
Por que existe esta lista
Uma genealogia bíblica não é curiosidade de família. Ela existe para responder a uma pergunta jurídica e teológica: a quem pertence a promessa. Tudo começa com uma frase dita a Abraão, ainda sem filhos, em Gênesis 12:
“Farei de ti uma grande nação… e em ti serão benditas todas as famílias da terra.”
A partir daí o texto passa mil e poucos anos rastreando por onde essa promessa anda. Ela estreita em cada geração: de todos os povos, escolhe a descendência de Abraão; dos filhos de Abraão, Isaque; dos filhos de Isaque, Jacó; dos doze filhos de Jacó, Judá; da tribo de Judá, a casa de Davi. Quando Mateus abre o Evangelho com “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão”, ele está fechando esse funil: aqui chegou.
Três coisas que mudam a leitura
- “Gerou” não quer dizer “é pai imediato de”. O verbo hebraico e o grego cobrem também neto e bisneto. Por isso uma genealogia pode saltar gerações sem estar mentindo — e Mateus salta várias, de propósito.
- A lista é um argumento, não um cartório. Ela é montada para provar uma tese. Mateus organiza tudo em três blocos de catorze gerações (Abraão→Davi, Davi→exílio, exílio→Cristo) porque o valor numérico das letras do nome Davi em hebraico é catorze. A forma faz parte da mensagem.
- A promessa quase nunca segue o filho esperado. Não vai para Ismael, o primogênito; não vai para Esaú, o mais velho; não vai para Rúben, o primeiro de Jacó; e Davi é o caçula de oito irmãos. O texto insiste nisso do começo ao fim.
Gênesis 12:1-3; 17:19; 2 Samuel 7:12-16; Mateus 1:1, 1:17
Doze tribos, treze filhos — a conta que não fecha
Jacó tem doze filhos homens e uma filha, Diná. Mesmo assim as listas de tribos dão sempre doze, e nem sempre com os mesmos nomes. O ajuste acontece em dois pontos:
- Levi sai da conta de território. A tribo sacerdotal não recebe terra: vive das ofertas e das cidades levíticas espalhadas entre as outras. Some do mapa, não da história.
- José entra em dobro. Jacó, já velho, adota os dois netos egípcios — Efraim e Manassés, filhos de José com Azenate — como se fossem filhos próprios. Onde havia um José, passam a existir duas tribos.
Doze menos Levi, mais Efraim e Manassés: doze de novo. E é por isso que, dependendo do capítulo, você acha “tribo de José” numa lista e “Efraim e Manassés” em outra.
Gênesis 48:1-20; Números 1:47-53; 18:20-24; Josué 13:14
A árvore
👤Abraãoantes: Abrãopatriarca
Sai de Ur e depois de Harã atrás de uma promessa: terra e descendência. Tem filhos com três mulheres, e é dessas três que saem povos diferentes — só uma delas carrega a linha que o Novo Testamento vai seguir.
Gênesis 12; 17; 21; 25:1-11
👩Saraesposa · antes: Saraiesposa
Estéril por quase toda a vida. Tem Isaque na velhice, depois de rir da promessa — e o nome do filho guarda esse riso. Morre aos 127 anos, em Hebrom.
Gênesis 17:15-19; 18:9-15; 21:1-7; 23:1-2
👤Isaqueo filho da promessapatriarca
É o elo mais silencioso da série: quase não fala, quase não decide. Casa aos 40 anos com Rebeca e vive até os 180.
Gênesis 21:1-3; 22; 25:20; 35:28-29
👩Rebecaesposa de Isaqueesposa
Também estéril no começo. Tem gêmeos que já brigam no ventre, e recebe o aviso de que o mais velho serviria ao mais novo — o que inverte a regra de herança de toda aquela cultura.
Gênesis 24; 25:21-26
🌍Esaúo primogênito · pai de Edomoutro povo
Nasce primeiro e vende o direito de primogenitura por um prato de lentilhas. Casa com mulheres da região — Ada, Oolibama e Basemate — e dá origem aos edomitas, vizinhos e rivais de Israel por séculos.
Gênesis 25:29-34; 27; 36
Os herodianos, no tempo de Jesus, eram idumeus — descendentes desse ramo. A rivalidade da família ainda estava viva no primeiro capítulo do Evangelho.
👤Jacódepois: Israelpatriarca
Toma a bênção do irmão, foge, trabalha catorze anos por Raquel e volta mancando de uma luta noturna, com nome novo: Israel. Tem treze filhos com quatro mulheres — e é daí que sai um povo dividido em doze tribos.
Gênesis 25:26; 27–33; 32:28; 35:22-26
👩Lia1ª esposa · 6 filhos e 1 filhaesposa
Entregue no lugar da irmã na noite do casamento. É a menos amada e a mais fecunda — e é dela que vêm as duas tribos decisivas: Levi, o sacerdócio, e Judá, a realeza.
Gênesis 29:16-35; 30:17-21
🏕Rúbenprimogênitotribo
Tinha tudo: primeiro filho do primeiro casamento, herdeiro natural de porção dobrada e da chefia da família. Perde os dois por deitar-se com Bila, concubina do pai — e Jacó, na hora da bênção, o descreve como “instável como a água”. A porção dobrada vai para José, a chefia vai para Judá, e a tribo de Rúben nunca produz um líder relevante.
Gênesis 35:22; 37:21-22; 49:3-4; 1 Crônicas 5:1-2
Repare que é ele quem tenta salvar José do poço. O texto não faz dele um vilão: faz dele alguém que não sustenta as próprias boas intenções.
🏕Simeãotribo
Com Levi, massacra Siquém pela desonra da irmã Diná. A tribo acaba absorvida dentro do território de Judá.
Gênesis 34; 49:5-7
🏕Levitribo sacerdotaltribo
Não recebe território: vive do serviço ao santuário. Moisés, Arão e, no Novo Testamento, João Batista vêm daqui.
Números 18:20-24; Lucas 1:5
🏕Issacaro quinto de Liatribo
Nasce depois do episódio das mandrágoras, em que Lia praticamente compra uma noite com Jacó. O nome carrega essa ideia de salário, de paga. A tribo fica com terra boa no vale de Jezreel e ganha, séculos depois, uma fama curiosa: “homens que entendiam os tempos e sabiam o que Israel devia fazer”.
Gênesis 30:14-18; 1 Crônicas 12:32
🏕Zebulomo sexto de Liatribo
Recebe a região norte, perto do mar. Guarde este nome: Nazaré fica em território de Zebulom, e Cafarnaum em território de Naftali. Quando Mateus quer provar que Jesus cumpre Isaías, é exatamente para essas duas tribos que ele aponta — “o povo que jazia em trevas viu uma grande luz”.
Gênesis 30:19-20; 49:13; Isaías 9:1-2; Mateus 4:13-16
👩Dináúnica filha nomeadafilha
Sua história desencadeia a violência de Simeão e Levi em Siquém — e é o motivo pelo qual essas duas tribos perdem peso.
Gênesis 30:21; 34
👑Judáa linha real · daqui segue até Jesusa linha
Quarto filho, e ainda assim é dele que sai o cetro. Sugere vender José em vez de matá-lo, casa com uma cananeia e é enganado pela própria nora — de um jeito que a Bíblia não suaviza.
Gênesis 29:35; 37:26-27; 38; 49:8-12
👩A filha de Suacananeia · 1ª esposa de Judáesposa
Mãe de Er, Onã e Selá. Os dois primeiros morrem sem deixar filhos, e é essa falta que empurra Tamar para o que ela faz a seguir.
Gênesis 38:1-11
👩Tamarnora de Judá · 1ª mulher citada em Mateusesposa
Viúva duas vezes, é deixada sem o cunhado que a lei lhe devia. Disfarça-se, engravida do próprio sogro e guarda a prova. Quando Judá manda queimá-la, ela apresenta o sinete — e ele reconhece: “ela é mais justa do que eu”. Tem gêmeos: Perez e Zerá.
Gênesis 38:12-30
Mateus podia ter começado a genealogia de Jesus por qualquer nome limpo. Escolheu abrir com esta história.
👤Perezo filho de Tamar · daqui sai a linha reala linha
Aqui a família de Abraão vira uma linha só, e ela é longa demais para caber nesta mesma árvore. Perez é a raiz da segunda árvore, logo abaixo — de Perez até Jesus.
Gênesis 38:29; Rute 4:18
Zerá, o irmão gêmeo de Perez, some da narrativa aqui. A promessa segue com o outro.
👩Raquel2ª esposa · a amadaesposa
Jacó trabalha catorze anos por ela. Fica estéril por muito tempo e morre no parto do segundo filho, na estrada para Belém.
Gênesis 29:6-30; 30:22-24; 35:16-20
🏕Josévendido pelos irmãos · governador do Egitotribo
Casa no Egito com Azenate e tem Manassés e Efraim — dois filhos que Jacó adota como seus, e é por isso que as doze tribos fecham doze mesmo com Levi de fora da divisão de terras.
Gênesis 37; 41:50-52; 48:5
🏕Benjamimo caçulatribo
Raquel morre ao dar à luz. Séculos depois saem daqui o rei Saul e o apóstolo Paulo.
Gênesis 35:16-18; 1 Samuel 9:1-2; Filipenses 3:5
👩Bilaserva de Raquelserva
Dada a Jacó por Raquel, que ainda não conseguia ter filhos. É a mesma solução que Sara tinha usado com Agar duas gerações antes — a família repete o próprio erro. Mãe de Dã e Naftali, duas tribos plenas, sem nenhum rebaixamento.
Gênesis 30:1-8
🏕Dãtribo
O nome vem de “julgar”. Sansão, o juiz mais famoso e mais problemático, é danita. A tribo não consegue segurar o território que recebe, migra para o extremo norte e monta ali um santuário próprio — episódio que o livro dos Juízes conta com evidente desaprovação.
Gênesis 30:6; Juízes 13–16; Juízes 18
Dã é a única tribo que some da lista de Apocalipse 7. Rendeu séculos de especulação; o texto não explica.
🏕Naftalitribo
Fica com a terra em volta do mar da Galileia — Cafarnaum, onde Jesus monta base, é território de Naftali. Boa parte do ministério público acontece em terra de duas tribos periféricas, longe de Jerusalém.
Gênesis 30:7-8; Isaías 9:1-2; Mateus 4:13-16
👩Zilpaserva de Liaserva
Quando Lia para de engravidar, ela repete o gesto da irmã e entrega a própria serva. Mãe de Gade e Aser. Junto com Bila, deixa claro um dado que passa batido em quase toda aula: quatro das doze tribos de Israel descendem de servas, e nenhuma lista bíblica as trata como inferiores.
Gênesis 30:9-13
🏕Gadetribo
Nome ligado a “ventura”, “boa sorte”. Escolhe ficar a leste do Jordão, fora da terra prometida propriamente dita, por causa das pastagens — e por isso vive sempre na fronteira, sendo o primeiro a ser atacado.
Gênesis 30:10-11; Números 32:1-5; 1 Crônicas 5:18-22
🏕Asertribo
Nome ligado a “felicidade”. Fica com a faixa costeira do norte, rica em azeite. Aparece uma última vez no Novo Testamento de um jeito discreto e bonito: Ana, a profetisa que reconhece o menino Jesus no Templo, era da tribo de Aser — uma tribo que já tinha praticamente desaparecido da história.
Gênesis 30:12-13; Deuteronômio 33:24; Lucas 2:36-38
👩Agarserva egípcia de Saraserva
Dada a Abraão por iniciativa da própria Sara, quando a promessa demorava. Depois é expulsa com o filho no deserto — e recebe, ali, uma promessa só dela.
Gênesis 16; 21:8-21
🌍Ismaelprimogênito de Abraão · 12 príncipesoutro povo
Primeiro filho de Abraão, e circuncidado com ele. Fica fora da linha da promessa, mas recebe a sua: doze filhos que viram doze chefes — Nebaiote, Quedar, Adbeel, Mibsão, Misma, Dumá, Massá, Hadade, Tema, Jetur, Nafis e Quedemá. Volta com Isaque para enterrar o pai.
Gênesis 16:15; 17:20; 25:9; 25:12-18
A tradição islâmica liga a este ramo a ascendência dos árabes. O texto de Gênesis descreve os territórios, não faz essa afirmação.
👩Quetura3ª mulher · depois da morte de Saraesposa
Gênesis a chama de esposa; 1 Crônicas, de concubina. Tem seis filhos com Abraão — Zinrã, Jocsã, Medã, Midiã, Isbaque e Suá — que são mandados para o oriente, longe da herança de Isaque.
Gênesis 25:1-6; 1 Crônicas 1:32
De Midiã saem os midianitas. Jetro, sogro de Moisés, é sacerdote de Midiã: os dois lados da família de Abraão voltam a se cruzar no Êxodo.
Segunda árvore: de Perez até Jesus
Daqui em diante não há mais ramificação de famílias: é uma linha, geração após geração, até José. De Perez a Jessé a Bíblia dá uma lista corrida, sem histórias no meio — exceto em dois pontos, onde entram duas estrangeiras:
Rute 4:18-22; 1 Crônicas 2:5-15; Mateus 1:3-6
👑Davirei · o eixo da promessarei
Caçula de Jessé, pastor, rei de Judá e depois de todo Israel. É a ele que se promete um trono que não acaba — e é por isso que a genealogia de Jesus precisa passar por aqui. A partir de Davi, Mateus e Lucas se separam: um desce por Salomão, o outro por Natã.
1 Samuel 16; 2 Samuel 7:12-16; 1 Crônicas 3
👩Bate-Seba“a que fora mulher de Urias”esposa
Mateus não escreve o nome dela: escreve o do marido que Davi mandou matar. A genealogia real de Israel passa pelo pior capítulo do rei. Mãe de Salomão.
2 Samuel 11–12; Mateus 1:6
👑Salomãoe os reis de Judá depois delerei
Constrói o Templo. Depois dele o reino racha em dois, e a linha de Jesus segue pelo reino do sul, Judá, rei após rei, até a Babilônia levar tudo:
Salomãoo TemploRoboãoa divisão do reinoAbiasAsaJosafáJorãoUziasou AzariasJotãoAcazEzequiasIsaías é seu contemporâneoManassésAmomJosiasa grande reformaJeconiasdeportado, 597 a.C.Mateus 1:7-11; 2 Reis 11–25; 2 Crônicas 22–36
Mateus pula três reis entre Jorão e Uzias — Acazias, Joás e Amazias — e ainda Jeoaquim antes de Jeconias. Não é erro de cópia: é o preço de fechar a conta em três blocos de catorze (Mt 1:17). Genealogia antiga é memória organizada, não cartório.
⛓O exílio na Babilônia587 a.C. · e o caminho de volta a Joséexílio
O Templo cai, a monarquia acaba e a linhagem real vira uma família comum entre deportados. Ela não some — mas nunca mais volta ao trono. Depois do exílio, Mateus lista nomes que só aparecem aqui:
SalatielZorobabelreconstrói o TemploAbiúdeEliaquimAzorSadoqueAquimEliúdeEleazarMatãJacópai de José, em MateusMateus 1:12-16; Esdras 3:2; Ageu 1:1
👤Josécarpinteiro, de Nazaré · esposo de Mariapatriarca
É nele que a linha de Davi chega. Repare no que Mateus faz na última linha: quebra a fórmula. Em vez de “José gerou Jesus”, escreve “José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus”. A descendência davídica de Jesus é legal — vem de ser reconhecido como filho — e o próprio texto avisa isso.
Mateus 1:16; 1:18-25; Lucas 2:4
👩Mariamãe de Jesusesposa
Mateus a nomeia sem lhe dar genealogia. Parte da tradição lê a lista de Lucas 3 como sendo a dela — o que resolveria a divergência entre os dois evangelhos, mas o texto de Lucas não diz isso com todas as letras.
Mateus 1:16; Lucas 1:26-38
✝Jesuschamado o Cristochegada
Fim da lista. Quarenta e duas gerações depois de Abraão, o texto para aqui — e o resto do Evangelho passa a falar de outra coisa que não sangue.
Mateus 1:16-17
📖Natãoutro filho de Davi · por onde desce Lucasnota
Lucas 3 não desce por Salomão: desce por Natã, outro filho de Davi e Bate-Seba. São cerca de quarenta e um nomes entre Davi e José, quase todos diferentes dos de Mateus — e no fim as duas listas chegam ao mesmo José, que em Lucas é filho de Eli, não de Jacó.
Lucas 3:23-31; 1 Crônicas 3:5
Veja a seção “Mateus e Lucas não batem” mais abaixo.
Quando isso tudo aconteceu
A árvore cobre cerca de dois mil anos. Ajuda muito, em aula, mostrar que entre Abraão e Jesus cabe mais tempo do que entre Jesus e nós:
As quatro mulheres que Mateus faz questão de citar
Genealogia judaica antiga listava homens: “A gerou B, B gerou C”. As mulheres praticamente não aparecem. Mateus quebra essa regra quatro vezes antes de chegar a Maria — e não escolhe nenhuma das matriarcas prestigiadas. Sara, Rebeca e Raquel ficam de fora. Entram estas:
| Quem | De onde vem | Por que a escolha incomoda |
|---|---|---|
| Tamar | cananeia, nora de Judá | engravida do próprio sogro — e o texto lhe dá razão |
| Raabe | de Jericó, cidade condenada | prostituta; esconde os espiões e troca de lado |
| Rute | moabita | de um povo que a Lei mandava manter longe da assembleia |
| Bate-Seba | mulher de Urias, o hitita | o adultério e o assassinato encomendado pelo rei |
O que cada uma acrescenta
- Tamar é a mulher que faz justiça contra a própria família porque a família não cumpriu a lei com ela. Judá termina o episódio dizendo “ela é mais justa do que eu” — e é dessa gravidez que sai a linha real.
- Raabe pertence à cidade que Israel destrói. Ela escolhe o Deus do outro lado antes de qualquer israelita perceber, e é poupada com toda a família. O Novo Testamento a cita duas vezes como exemplo de fé.
- Rute é estrangeira e viúva, ou seja, sem nenhum direito. Fica com a sogra por lealdade, não por obrigação, e ganha um livro inteiro com o nome dela — que termina exatamente com a genealogia que leva a Davi. É a bisavó do rei.
- Bate-Seba é a única que Mateus não nomeia: escreve “a que fora mulher de Urias”. A escolha é deliberada. Em vez de suavizar o pior capítulo de Davi, ele o deixa escrito na certidão do Messias.
Três são estrangeiras, a quarta é lembrada pelo marido que o rei mandou matar, e todas as quatro têm histórias que envolvem sexo, escândalo ou margem. Não é descuido: é a tese do evangelho aparecendo já no capítulo 1. A linha que chega a Jesus atravessa gente de fora do povo e episódios que a família preferiria esquecer — e é por isso que Mateus abre com ela um livro que vai terminar mandando pregar “a todas as nações”.
Mateus 1:3, 5, 6; 28:19; Gênesis 38; Josué 2 e 6:25; Rute 1–4; 2 Samuel 11–12; Hebreus 11:31; Tiago 2:25
Mateus e Lucas não batem
É a divergência mais conhecida do Novo Testamento, e não adianta fingir que não existe. Do Abraão até Davi as duas listas são praticamente iguais. Depois de Davi, elas se separam:
| Mateus 1 | Lucas 3 | |
|---|---|---|
| Sentido | de Abraão para Jesus | de Jesus para trás, até Adão |
| Filho de Davi | Salomão | Natã |
| Pai de José | Jacó | Eli |
| Nomes de Davi a José | cerca de 26 | cerca de 41 |
| Onde começa | Abraão | Adão, “filho de Deus” |
As três saídas que costumam aparecer em aula
- Lucas seria a genealogia de Maria. “Eli” seria o pai dela, e José apareceria como genro. Encaixa bem com o fato de Lucas ser o evangelho que conta o nascimento do ponto de vista de Maria, e explicaria por que as duas listas divergem justamente onde o parentesco biológico entra. O problema: o texto de Lucas não diz isso. Ele escreve “sendo, como se cuidava, filho de José, filho de Eli”. É leitura possível, não afirmação do autor.
- Levirato. Pela Lei, se um homem morresse sem filhos, o irmão devia casar com a viúva e o primeiro filho era contado como do falecido. Nesse caso José teria um pai biológico e um pai legal — Jacó e Eli — e as duas listas estariam certas em planos diferentes. É a explicação mais antiga que sobreviveu, atribuída a Júlio Africano, no século III.
- Propósitos diferentes. Mateus escreve para judeus e precisa provar a linha oficial do trono: por isso desce por Salomão, rei atrás de rei, e para em Abraão — o pai do povo. Lucas escreve para gentios e vai na direção contrária, até Adão, “filho de Deus”: a mensagem é que Jesus não pertence a um povo, mas à humanidade. Cada um monta a lista que sustenta a sua tese.
Um detalhe que quase ninguém comenta
Se a linha do trono passasse por Salomão, ela esbarraria num problema: sobre Jeconias, o rei deportado, pesa uma maldição de Jeremias — “nenhum de seus descendentes se assentará no trono de Davi”. Alguns leem a linha de Natã, em Lucas, como o caminho biológico que desvia dessa maldição, enquanto Mateus preserva o direito legal ao trono via adoção de José. É uma reconciliação engenhosa; vale apresentar como hipótese, não como fato.
Jeremias 22:24-30; Deuteronômio 25:5-6; Lucas 3:23
Mateus 1:1-17; Lucas 3:23-38
Leitura espírita
Bloco de interpretação doutrinária, não de história. Vale deixar essa separação clara na hora de expor: até aqui o material sustenta-se em texto e arqueologia; daqui em diante é leitura.
Linhagem de missão, não de mérito
A genealogia prova que a promessa feita a Abraão e a Davi se cumpriu — ela é um documento de compromisso, não um atestado de superioridade de sangue. Nada no texto sugere que virtude se herda. Pelo contrário: dentro da mesma lista há assassinos, idólatras e reis que a própria Bíblia condena, ao lado de justos. Se a santidade passasse por descendência, essa lista não existiria assim.
Ninguém responde pelo antepassado
Tamar, Raabe, Bate-Seba, Manassés — a linha não esconde nada, e ainda assim segue. Isso conversa diretamente com o que o Espiritismo afirma sobre responsabilidade individual: cada Espírito responde pelo que fez, e não carrega culpa herdada. A própria Bíblia já tinha rompido com a ideia de culpa transmitida quando Ezequiel escreve que “o filho não levará a iniquidade do pai”, revogando o provérbio das uvas verdes.
De onde vem a grandeza de Jesus
Para a Doutrina, o que faz Jesus ser quem é não é a ascendência davídica: é o grau de evolução do Espírito que ali encarnou. A árvore explica o corpo, a família, o povo, a língua, a cultura e o momento histórico em que Ele aparece — e explicar isso já é muito, porque situa o Evangelho dentro do mundo real. Mas ela não explica quem Ele era. Kardec trata a questão da natureza de Jesus em A Gênese, e o ponto é justamente esse: a missão não se herda por sangue, se assume por elevação.
Por que estudar genealogia, então
Porque ela mostra a paciência do plano. Dois mil anos, dezenas de gerações, um povo pequeno e várias quase-interrupções — a linha quase se perde no Egito, quase se perde nos juízes, quase se perde no exílio. Ler isso com calma desfaz a impressão de que as coisas espirituais acontecem por acaso ou de repente. Elas levam tempo, e atravessam gente falha.
Kardec, A Gênese, cap. XV; O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV; O Livro dos Espíritos, questões sobre missão e provas; Ezequiel 18:1-20; Jeremias 31:29-30
Perguntas para o grupo
- Por que a promessa segue por Isaque e não por Ismael, o primogênito — e depois por Jacó e não por Esaú? O que o texto está dizendo sobre primogenitura?
- Quatro das doze tribos vêm de servas, e ninguém as trata como tribos menores. O que isso diz sobre como aquele povo se entendia?
- Judá é o quarto filho e mesmo assim recebe o cetro. Por quê?
- Se Mateus queria convencer judeus, por que abriu a genealogia com Tamar?
- O que muda no Evangelho quando o próprio Mateus escreve “José, marido de Maria” em vez de “José gerou Jesus”?
- Vale mais a linha de sangue ou a linha de missão? Onde a Doutrina responde isso?
Fontes
- Gênesis 11–50 — Abraão, Isaque, Jacó, as esposas, as servas, os doze filhos, Judá e Tamar.
- Rute 4:18-22 — a lista de Perez até Davi, a mais curta e antiga.
- 1 Crônicas 1–3 — a genealogia oficial, incluindo os reis que Mateus omite.
- 2 Reis 11–25 / 2 Crônicas 22–36 — os reis de Judá até o exílio.
- Mateus 1:1-17 — a lista seguida por esta árvore.
- Lucas 3:23-38 — a genealogia divergente, de Jesus a Adão.
- Kardec, A Gênese (cap. XV) — a natureza de Jesus na leitura espírita.
Nomes seguem a grafia de João Ferreira de Almeida. Outras traduções escrevem Arão como Ram, Uzias como Azarias, Jeconias como Joaquim — conferir antes de usar em prova.